Acho que sonhamos em viver, mas já estamos vivendo e, nesse processo, pensamos nos nossos sonhos e deixamos de viver.
E, nesse processo, vamos entregando nossas vidas e sonhos para outros, e ficamos apenas com a casca do que um dia fomos. De tentativa em tentativa, vamos nos modificando — mas como se fosse uma obrigação.
Mudamos a fachada da casa sem nos preocupar com as paredes internas. Vamos colocando mais e mais adornos sem pensar se as colunas estruturais vão suportar.
E chega um momento em que a estrutura cai, e temos que viver com esse terreno sujo de pedaços do que um dia foi nossa casa. Não temos vizinhos nesse momento. Nos mudamos para muito longe deles para ter essa casa especial, e agora temos que limpar, pouco a pouco, sozinhos, enquanto o frio da noite ou o calor escaldante nos faz pensar.
E, quando finalmente o terreno é limpo dos restos da última casa, chega o momento de reconstruí-la.
Mas agora temos medo de fazer uma casa grande e linda como a antiga, com receio de que a estrutura caia novamente.
Então construímos uma casa simples, apenas para viver.
Só que, a todo momento em que estivermos nessa casa menor, vamos nos pegar pensando na outra — grande e linda, cheia de espaço.
Será que teremos capacidade de viver em uma casa pequena depois de termos experimentado uma grande?
E, assim, aceitamos a casa pequena, mesmo que sonhemos em viver, mesmo que já estejamos vivendo.
Até podemos ter condições de reformá-la e aumentá-la, mas o medo nos faz questionar se valeria a pena ter uma casa grande de novo.